Quando estudas enfermagem, tendencialmente, és bombardeada com a pergunta "porque é que não foste para medicina?", e, devo dizer, custa. Mas o que custa não é a circunstância em si, é a mente retrógrada das pessoas que fazem perguntas assim, muitas vezes inconscientes.
Apesar de serem duas profissões da área da saúde, que vão à vante porque uma depende da outra, são profissões distintas. Funções distintas, normas distintas, horários distintos, entregas distintas. Ambas se baseiam no amor e no carinho que é necessário fornecer ao outro, mas de forma tão diferente.
Hoje, orgulho-me imenso de mim e do percurso que escolhi. Enfermagem é uma ciência autónoma, autodidata, que depende em muito da medicina, claro que sim. Precisamos de um diagnóstico médico para poder cuidar, estar junto, apoiar, trazer de volta a qualidade de vida que aquela pessoa merece. E isso somos nós que fazemos. A entrega é nossa, dos bons profissionais de saúde.
E, ainda enraizado na nossa sociedade, está a ideia de que os enfermeiros servem para dar injeções e fazer pensos. Choca-me tanto quando me apercebo desta visão nada alargada dos factos. Infelizmente, ainda não me ouvem (ou não querem ouvir) muito. Ainda acham que nós pouco fazemos. E eu tento explicar, mas há algumas cabeças ocas por aí que não fazem o mínimo esforço para perceber. E entristece-me. É que a enfermagem está numa luta constante pelos direitos a que tem direito. Não somos só deveres, horas a mais, pagamentos em atraso. Não andamos 4 anos a aprender, a assimilar conteúdos médicos que nem sequer podemos pôr em prática, mas que somos obrigados a saber, para nada. Não temos o conhecimento necessário até precisarem de nós. Até ter de ser um de nós a agir, porque, nesse momento, já podemos conhecer tudo e mais alguma coisa. E essa mentalidade tem de acabar. Se isso não acontecer, a emigração vai continuar a ser um ponto forte. Porque queremos ser reconhecidos, valorizados pelo nosso esforço e dedicação.
Espero que as coisas mudem, não só o país, a política, a legislação, mas também os próprios enfermeiros - aqueles que vivem frustrados e se esquecem que, na hora de cuidar do outro, os nossos problemas devem ficar do lado de fora da porta.
Esforcem-se por fazer aquilo que amam, lutem pela mudança e sejam felizes.
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